Ça n'est pas vrai!

6.7.07

Destaque

Era mesmo uma mulher inteligente e esperta. Solteira, Joana tinha um namorado bonito e fiel. Gostavam-se. No trabalho, era a jornalista responsável pelo Caderno Cidades e, com isso, sabia de qualquer coisa que aconteceu, acontece e acontecerá em São Paulo. Comandava uma equipe de cinco outros jornalistas: fotógrafos, repórteres e colunistas.

O trabalho em grupo andava bem, mas todos os dias, quando fechavam a edição, tinha a certeza de que o Esportes, Mundo e Economia ganharam mais páginas coloridas e saíram mais bonitos e completos. Desejava ardentemente que lhe permitissem ter tantas cores quanto o Turismo e mais colunistas, como o TV e Cinema tinha. Mas, mais do que qualquer coisa, tremia de vontade de comandar a equipe da revista dominical!

A revista era o carro-chefe da edição de domingo. Era a responsável pelo jornal atingir o honroso segundo lugar nas vendas, derrotando adversários com muito mais história e passado.
Xodó de toda a redação, a revista era impressa em papel especial, as páginas eram 100% coloridas, os textos eram quase literários e não havia qualquer restrição de orçamento que fosse endereçada à Fátima, a jornalista responsável, colega de faculdade de nossa heroína.

Joana sabia que as parcas fotos coloridas a que tinha direito por edição, a falta de um colunista sequer e o número reduzido de páginas destinadas a seu caderno deviam ao fato de que ele era aquele que menos publicidade recebia. Na mente dos presidentes do jornal, nada mais correto, pois, que também fosse o caderno mais barato de ser produzido.
Era por esse motivo também que a jornalista responsável das Cidades era nossa Joana: dentre todos os colegas, era a mais inexperiente e aquela que menos brilho tinha para a arte da escrita. Seu salário estava diretamente relacionado ao peso que seu caderno tinha no jornal.

Nunca fora uma brilhante jornalista, nem nunca escrevera um livro. Seus principais artigos não chegavam a ser considerados textos literários, nem ao mesmo podiam ser classificados como um bom texto jornalístico. Conseguira seu lugar no jornal menos por saber reportar grandes acontecimentos e mais, muito mais!, por ter um senso absolutamente desprovido de censura para criticar o trabalho dos colegas. Apontava pequenos problemas onde devia reinar a perfeição. Era mestre neste assunto.

Há uns vinte dias, Fátima a convidou para ter uma coluna sobre as novidades noturnas da cidade na revista semanal. A idéia parecia excelente e ninguém entendeu o porquê de Joana recusar. Disse à colega que não podia aceitar, pois o trabalho nas Cidades andava ocupando-lhe muito tempo e, com isso, não poderia dedicar-se à coluna tanto quanto julgava necessário.
Frente à recusa, Fátima recorreu a outro colega: um amigo que trabalhava nos Esportes e, descolado como poucos, conhecia todas as novas casas noturnas, sabia das bandas que fariam sucesso na semana seguinte, conhecia os melhores e piores restaurantes e lanchonetes. Ele aceitou no ato e já no domingo publicaram seu primeiro texto: comparava uma nova balada com uma outra casa noturna que fizera sucesso anos atrás, mostrava o apogeu e a queda desta última e incitava a todos para impedir que isso acontece com a nova casa.

A coluna foi muito elogiada! Centenas de e-mail chegando à redação e louvando desde a qualidade do texto e as boas fotos apresentadas até a visão clara das modas noturnas da cidade.
Joana lembrou a ele que deveria ter se lembrado também daquele outro bar na Augusta, um muito pequeno, que só tocava rock, onde costumavam ir sempre anos atrás.

Semana seguinte, mais elogios! Ótima crítica sobre as salas de exibição e os filmes em cartaz em cada uma, com uma excelente descrição do perfil de freqüentadores dos cinemas espalhados pelos quatro cantos da cidade.
Joana, na segunda-feira, comentou que o Cine Risso havia ficado de fora da lista. “A sala mais cult dos anos 80”, disse ela.
O comentário gerou uma acalorada discussão entre os dois. E muito burburinho dentro do jornal.
O cara foi acusado de não aceitar críticas, de tomar como pessoal os comentários dispensados ao texto. O bate-boca rendeu fofocas até o fim da tarde.

No domingo, em casa, sozinha e sem definir a pauta da página dois, Joana pôs-se a ler o novo artigo. Agora versava sobre algumas pizzarias antigas e desconhecidas.
Cada palavra a enchia de prazer! Cada frase era tão bem escrita que amaldiçoava o amigo por escrever assim.
O texto todo era só deleite. O texto todo era contagiante! Do início ao fim!

Sabia que teria de se esforçar mais uma vez para criticar uma idéia tão bem colocada.

1 Comments:

  • Lu

    Que delícia de texto, ainda mais com a apoligia ao cine Risso... me deu até saudade...
    Beijos

    Tia Lúcia

    By Anonymous Anônimo, at 4:40 PM  

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